Júpiter em movimento retrógrado em Caranguej
Queixa, Deixa
(Piruetas de Júpiter em movimento retrógrado em Caranguejo)
Hector Othon
Eu canto a queixa — não como quem desiste,
mas como quem precisa tirar do peito o peso antes de continuar.
— O que você quer? — pergunta o coro.
Eu quero gozar de paz, acalmar,
mesmo que ainda fora do abismal.
O corpo pede trégua,
o espírito segue, mas as pernas tremem.
O caminho parece longo demais
para quem precisa alcançar o horizonte.
É fundo de pouso, labirinto, névoas.
Queria repousar, contemplar, respirar…
ser por um instante apenas silêncio e imobilidade.
Ninguém escuta,
mesmo quando gritamos com os olhos.
Conversamos com o teto, com as paredes, com o espelho,
e o céu — distante ou distraído — nada responde.
E o coração se pergunta:
“onde está quem pode me acolher?”
As obrigações, compromissos, afetos, dores,
chegam como mar revolto sem intervalo entre uma onda e outra.
A vida cobra postura, sorriso, firmeza,
enquanto por dentro só queremos largar a espada.
Que venha logo o tempo dos androides auxiliares…
Falta toque, falta pele, falta olho no olho,
falta vibração, sintonia, beijo.
Falta uma mão que afague a alma,
que agarre com gostosura o corpo
e sussurre com ternura:
“eu sinto você… está sendo bom, gostoso, verdadeiro. Eu te quero.”
Às vezes parece que esse mal-estar não tem fim.
A noite azul é profunda demais,
larga como a dor que se espalha pelo corpo.
E nos perguntamos se existe alvorada
depois de tanta escuridão.
E ainda assim — canto.
Cantar é lembrar, ressignificar, libertar.
É o coração dizendo “ainda estou vivo”.
É a voz encontrando sua frequência
e, no azul mais triste,
uma estrela insistindo em brilhar.
Canta comigo
enquanto a noite durar.
Dancemos até desmaiar.
Celebremos.
A vida também pulsa nas baixas frequências,
na densidade pegajosa, lambente, cheiro animal.
Vivo o telúrico com adoração:
só o amor, só a aceitação encanta — liberta.
Respira.
Sintoniza.
Canta, encanta, dança.
Tudo passa.
Mas o instante é eterno.
É terno.
Tudo junto.
Um Om.
Abençoa a Paz.
Te amo.
Comentários
Postar um comentário